A recente proposta do deputado federal Marcos Pollon (PL), fundador do movimento Proarmas, reacende um debate que vai muito além da segurança ou do esporte: trata-se de compreender o papel da escola no desenvolvimento de cidadãos conscientes, críticos e preparados para os desafios do século XXI. O projeto de lei apresentado pelo parlamentar propõe a criação de uma disciplina extracurricular de tiro desportivo para estudantes a partir dos 14 anos, com uso de armas de pressão, airsoft ou paintball — uma ideia que, à primeira vista, parece inspirada mais por ideologias pessoais do que pelas necessidades concretas da educação brasileira.
Com uma justificativa recheada de referências à Suíça, Alemanha e Finlândia, Pollon tenta sustentar que a prática do tiro nas escolas pode fortalecer valores como disciplina, autocontrole e respeito às regras. O que o deputado esquece — ou ignora — é que esses países citados investem massivamente em educação pública de qualidade, infraestrutura, formação docente e bem-estar estudantil antes de discutirem o uso de armas, ainda que esportivas, no ambiente escolar.
No Brasil, por outro lado, lidamos com salas superlotadas, prédios sem ventilação adequada, escassez de merenda e professores que, muitas vezes, mal têm papel para imprimir uma prova. E nesse contexto de vulnerabilidade estrutural, a proposta de ensinar adolescentes a manusear réplicas de armas parece mais um delírio populista do que uma política pública séria.
Não se trata de demonizar o tiro esportivo, modalidade olímpica legítima e respeitada — inclusive com atletas brasileiros de destaque. O problema é a forma como a proposta se desconecta da realidade escolar, impondo uma agenda ideológica em vez de apresentar soluções pedagógicas concretas. É como oferecer coletes à prova de bala para alunos que sequer têm carteira escolar.
Além disso, a tentativa de emoldurar o projeto como atividade “disciplinadora” carrega consigo um discurso que romantiza o autoritarismo em detrimento do pensamento crítico. Educação se faz com diálogo, leitura, pesquisa, ciência, arte — não com mira a laser e alvos de papelão.
Outro ponto preocupante é o momento em que essa proposta surge: em meio a crises sucessivas no setor educacional, com baixos salários docentes, evasão escolar, falta de conectividade e problemas estruturais em milhares de escolas públicas. Enquanto profissionais da educação lutam por valorização e alunos buscam apenas o básico para estudar, propor aulas de tiro soa como um insulto à inteligência da comunidade escolar.
A ideia de Pollon, travestida de inovação, expõe a velha prática da política do espetáculo, em que o barulho da proposta importa mais que seus efeitos reais. Não é a primeira vez que vemos parlamentares flertando com soluções fáceis e chamativas para problemas complexos. E, infelizmente, não será a última.
Enquanto isso, o Brasil segue com 4 em cada 10 crianças que não conseguem ler um texto simples até os 8 anos de idade. Mas, ao que parece, para alguns, mirar bem é mais importante do que entender o que se lê.
Em vez de importar modelos de países que investem até 6% do PIB em educação pública de qualidade, certos deputados preferem importar apenas o fetiche bélico. E nisso, mais uma vez, quem sai perdendo é o estudante brasileiro, que continua aguardando por salas de aula decentes, professores valorizados e um currículo que o prepare para a vida — não para o combate.
Porque educar é formar cidadãos livres, conscientes e preparados para transformar o mundo. Não basta mirar no futuro. É preciso ter direção.