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Opinião: Nada a ‘contar’: o fracasso dos que confundem vaidade com voto

Quando a água baixa, sobra areia para quem confundiu popularidade emprestada com força própria

Redação Digital
Por: Redação Digital Fonte: Álvaro Pereira FIlho
28/06/2025 às 08h24 Atualizada em 28/06/2025 às 10h11

Há fenômenos políticos que se explicam menos por talento ou carisma, e mais por aquilo que o mar traz, num movimento tão impetuoso quanto temporário. Na ressaca de grandes ondas eleitorais, é comum aparecerem figuras que, em outras circunstâncias, mal conseguiriam juntar uma dúzia de apoiadores ao redor de um coreto municipal. O Brasil conhece bem essa história: já vimos radialistas barulhentos virarem deputados, cantores de churrascaria se elegerem comitê popular, e agora temos, especialmente no Centro-Oeste, o produto mais explícito dessa corrente: aspirantes que imaginam ter peso próprio quando, na realidade, não passam de passageiros da onda chamada Jair Bolsonaro.

Convém ao leitor atento observar o quanto certas lideranças regionais, que jamais se provaram relevantes por si mesmas, tornaram-se pretensamente ambiciosas depois de 2018. São nomes que, de tão irrelevantes, não merecem sequer ser grafados aqui — mas cuja vaidade transborda. Gente que acredita piamente ter se tornado “referência” ou “fator decisivo” no tabuleiro político local, quando na verdade foram apenas sortudos o bastante para estar no lugar certo, na hora em que o tsunami conservador varreu o país.

Ocorre que o mar está recuando, e com ele vão embora os detritos políticos que vieram à tona unicamente pela força gravitacional do bolsonarismo. O ex-presidente, líder com estatura nacional e cujos gestos seguem provocando tremores em Brasília, já deu mostras suficientes de que suas prioridades estão em outro patamar. Seus acordos, alianças e articulações envolvem partidos robustos, ex-governadores, ministros com trajetória consolidada e projetos que miram o Planalto — não o modesto feudo eleitoral de quem se imagina indispensável.

Não é preciso muito esforço para perceber o constrangimento que paira quando tais figuras, acreditando no próprio mito, batem às portas dos generais dessa articulação em busca de “imposições” ou bênçãos exclusivas. O desconforto se manifesta em reuniões onde se repete, sem variações, a mesma conclusão: é preciso combinar com quem tem voto de verdade, estrutura partidária, articulação nos bastidores e o que se chama, no jargão seco de Brasília, de “densidade política”. Sobram sorrisos protocolares, apertos de mão calculados e evasivas elegantes. Falta, porém, o compromisso real.

Ainda mais curiosa é a fé quase mística de certos candidatos de ocasião. Depois de serem carregados no colo pela imagem de Bolsonaro — sem terem plantado sequer uma única árvore de credibilidade própria — acreditam sinceramente que podem sentar à mesa como iguais. Esquecem-se de que toda bolha política é sustentada por ar que não lhes pertence. E quando esse ar some, eles murcham.

Basta olhar o cenário de Mato Grosso do Sul. Enquanto articulações robustas envolvem ex-governadores, senadores, deputados federais com mandatos sólidos e partidos capazes de bancar campanhas majoritárias, há quem se coloque como “fator decisivo” no jogo — quando sequer dispõe de legenda estruturada, tempo de TV ou coligação viável. É quase tragicômico observar esses projetos pessoais naufragarem antes mesmo de serem oficialmente lançados, sufocados pela dura realidade das convenções partidárias e pelos compromissos firmados por quem realmente decide.

No fundo, há algo de pedagógico nesse processo. O Brasil é prolífico em fabricar lideranças instantâneas, embaladas pelo marketing eleitoral do momento. Mas o filtro implacável da política — o de verdade, feito nos gabinetes, nas alianças de longo prazo, nos acordos que duram mais que um ciclo de WhatsApp — acaba separando rapidamente o joio do trigo. Quem não construiu pontes, não consolidou base, não tem histórico de articulação ou não soube cultivar aliados acaba devolvido à sua insignificância natural.

É esse o destino reservado à vasta galeria de personagens que confundiram a força de uma onda com mérito próprio. Passada a maré alta, o que fica é a areia lisa, sem pegadas. O ex-presidente Bolsonaro, com todas as críticas que se possa fazer a seu estilo e agenda, ao menos demonstra saber quais batalhas vale a pena travar. Não distribui candidaturas como troféus de participação. Seu foco, naturalmente, é garantir vitórias consistentes, consolidar bancadas, proteger aliados que podem, de fato, influenciar o futuro político do país. Não há tempo, muito menos capital político, para esbanjar com personalismos vazios.

A grande lição — ainda que dura para alguns egos — é que popularidade emprestada não se transforma, magicamente, em capital próprio. A história política brasileira está repleta de exemplos de candidatos que desapareceram tão rápido quanto surgiram, uma vez que o padrinho retirou o tapete ou simplesmente mudou de prioridade. O mesmo ocorrerá, sem surpresas, com quem confunde sombra projetada com luz própria.

E assim segue o curso natural das coisas. A espuma desaparece, o mar se acalma e o que sobra na praia raramente vale a segunda olhada. Para quem acredita ser imprescindível só porque surfou na crista de um fenômeno alheio, o silêncio dos líderes de verdade — aqueles que, de fato, possuem o que negociar — soa ensurdecedor.

 

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