A expansão dos sistemas de monitoramento ambiental no Brasil deve alcançar o Pantanal e outras regiões críticas do país. A iniciativa, inicialmente voltada à Amazônia e ao Cerrado, foi confirmada por especialistas do Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE) durante a Futurecom 2025, realizada em São Paulo.
Segundo o professor da Universidade de Brasília (UnB) e membro sênior do IEEE, Renato Borges, o objetivo é criar uma rede nacional de dados ambientais que permita prevenir desastres e acompanhar mudanças nos biomas em tempo real.
“A Amazônia é referência, e o Cerrado já tem algumas iniciativas em andamento, mas precisamos de uma cobertura completa. Mato Grosso e Mato Grosso do Sul são protagonistas nesse processo, com grupos de excelência que já trabalham com esse tipo de infraestrutura”, destacou Borges.
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Com cerca de 65% de sua área total localizada em Mato Grosso do Sul, o Pantanal vem sofrendo com queimadas recorrentes. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicam que, somente em 2024, mais de 1 milhão de hectares foram atingidos pelo fogo.
Borges ressaltou que sensores específicos para o bioma já estão previstos no projeto.
“Para situações como queimadas, existem sensores próprios. A ideia é integrar essas informações e perceber os impactos ambientais em tempo real”, explicou.
Um dos principais desafios para a implantação das torres no Pantanal é a falta de conectividade. Muitas áreas não possuem cobertura de internet ou telefonia celular, o que dificulta o envio de dados. A solução, segundo o especialista, será combinar tecnologias terrestres e espaciais, com o uso de satélites para coleta e transmissão das informações.
“Essas torres terão autonomia energética, gerando e armazenando energia própria e enviando dados via satélite, garantindo operação mesmo em áreas isoladas”, completou Borges.
Além do Pantanal, o Cerrado sul-mato-grossense também será contemplado. A região é estratégica por concentrar parte da produção agrícola do Estado e enfrentar o desmatamento crescente. Segundo o MapBiomas, o Cerrado foi o bioma que mais perdeu vegetação nativa em 2023.
Com a integração de novas torres e satélites, será possível monitorar queimadas, enchentes e mudanças no uso do solo em tempo real, apoiando políticas públicas de mitigação de riscos e estratégias de conservação ambiental.
A professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e também membro sênior do IEEE, Cristiane Pimentel, explicou que o projeto inclui o desenvolvimento dos chamados gêmeos digitais — réplicas virtuais de ecossistemas e estruturas físicas.
“Combinamos sensores, inteligência artificial e modelos preditivos para antecipar desastres ambientais. É possível prever, por exemplo, o tempo de vida útil de uma barragem e planejar manutenções preventivas”, detalhou.
Cristiane destacou que esses modelos já são aplicados em grandes centros urbanos, como São Paulo e Curitiba, para estudos de drenagem e planejamento urbano.
Borges complementou que o trabalho de campo, com instalação de torres verticais equipadas com sensores, é essencial para a coleta de dados que permitirão criar os gêmeos digitais dos biomas brasileiros.
“Essas estruturas ultrapassam a copa das árvores e captam informações em várias camadas, inclusive no subsolo. São fundamentais para entender o comportamento dos ecossistemas e os impactos da ação humana”, explicou.
Os especialistas destacam que o monitoramento integrado e o uso de gêmeos digitais trarão mais precisão e segurança às decisões ambientais.
“Esses modelos vão ajudar governos e empresas a tomar decisões mais sustentáveis, reduzindo custos e o uso de recursos”, afirmou Cristiane.
O Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE) é a maior organização técnico-profissional do mundo, com mais de 486 mil membros em 160 países, sendo cerca de 5 mil no Brasil. A entidade é referência global em tecnologia, engenharia e inovação aplicada ao desenvolvimento humano e ambiental.