Meio Ambiente Pantanal
Cortes de Trump nos EUA afetam sistema da Nasa que monitora incêndios no Pantanal e em MS
Paralisação do sistema Firms compromete acesso global a dados de satélites usados no combate ao fogo e na análise ambiental
06/10/2025 09h45
Por: Redação Digital Fonte: Da Redação
Atualmente incêndios florestais atingem a região da Serra do Amolar e o Parque Estadual Nascentes do Rio Taquari, no Pantanal de MS - Foto: Divulgação / Edu Clicks/ IHP

Os cortes orçamentários e a paralisação administrativa do governo dos Estados Unidos, determinados pelo presidente Donald Trump, impactaram diretamente o funcionamento de um dos principais sistemas mundiais de monitoramento de incêndios florestais: o Firms (Fire Information for Resource Management System), mantido pela Nasa em parceria com a Universidade de Maryland e o Serviço Florestal dos EUA.

Desde o início de outubro, o sistema está fora do ar e sem previsão de retorno, interrompendo a atualização dos dados globais sobre focos de calor, queimadas e desmatamento. O problema ocorre em um momento crítico para o Pantanal sul-mato-grossense, que enfrenta novos incêndios florestais em áreas como a Serra do Amolar (Corumbá) e o Parque Estadual Nascentes do Rio Taquari (Alcinópolis).

O Firms é reconhecido internacionalmente pela capacidade de reunir, em uma plataforma pública e gratuita, dados de mais de cinco satélites. Ele permite consultas em diferentes intervalos — 24 horas, sete dias ou períodos estendidos — e oferece mapas automatizados com áreas queimadas, vegetação removida e alterações no uso do solo.

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“Em função do fechamento administrativo do governo federal, a Nasa não está atualizando o site e outras informações e dados podem, temporariamente, ficar indisponíveis”, informou a agência norte-americana em nota oficial assinada pela Equipe Firms.

Ferramenta essencial para o Pantanal

No Brasil, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) utiliza os dados do Firms para alimentar o Painel do Fogo, sistema de referência nacional no monitoramento de queimadas. Sem o repasse dos dados americanos, a precisão das análises e o acompanhamento da propagação do fogo ficam comprometidos.

A pesquisadora Tatiane Deoti Pelisarri, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), destaca que os dados do Firms são essenciais para estudos de longo prazo e planejamento de ações preventivas.

“Essas informações são amplamente utilizadas em mapeamentos de incêndio, zoneamento de risco e caracterização dos regimes de fogo em escala local e global”, explicou.

Como o Firms funciona

O engenheiro da computação Alexandre Henrique Soares Dias, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), descreveu em pesquisa recente que o sistema utiliza satélites como o Terra (EOS AM-1) e o Aqua (EOS PM-1), ambos de órbita polar, capazes de gerar atualizações a cada três horas.

“Esses satélites captam dados de temperatura e composição da atmosfera, permitindo compreender as dinâmicas da Terra e prever mudanças globais com alto grau de precisão”, ressaltou Dias.

Outras alternativas em uso

Apesar da paralisação do Firms, outras tecnologias continuam operando. Um exemplo é o sistema Pantera, desenvolvido pela startup Um Grau e Meio e utilizado pelo Instituto Homem Pantaneiro (IHP), em Corumbá.

A plataforma faz monitoramento em tempo real por câmeras de alta resolução e utiliza inteligência artificial para detectar fumaça e calor, enviando alertas imediatos a órgãos de resposta, como o Corpo de Bombeiros de MS, o Prevfogo/Ibama, o Ministério Público de MS e a Defesa Civil.

O analista de tecnologia do IHP, Igor Souza, explica que, embora o Pantera tenha alcance mais localizado, o Firms cumpre um papel complementar essencial.

“O Firms contribui para extrair informações sobre mudanças de área atingida e auxiliar na automação de análises. Ele fornece o panorama macro que complementa o monitoramento em tempo real do Pantera”, destacou.

Impacto global e regional

O apagão de dados da Nasa reforça a dependência internacional de sistemas compartilhados para a gestão ambiental e o combate às queimadas. No caso do Pantanal e de Mato Grosso do Sul, a perda temporária de acesso às informações do Firms pode atrasar a tomada de decisões estratégicas e o planejamento de operações integradas.

Especialistas alertam que o episódio serve de alerta para a necessidade de o Brasil investir em infraestrutura própria de sensoriamento remoto e modelagem de risco ambiental, reduzindo a dependência de fontes externas para o monitoramento de biomas estratégicos.