Agricultura Desafio
Déficit de armazenagem em Mato Grosso do Sul ultrapassa 11 milhões de toneladas de grãos
Produção recorde de soja e milho expõe gargalo logístico e reforça necessidade de novos investimentos no setor
16/10/2025 16h24
Por: Redação Digital Fonte: Da Redação
MS tem grande déficit de armazenamento - FOTO: Gerson Oliveira/Correio do Estado

Mato Grosso do Sul enfrenta um grave desequilíbrio entre o volume de grãos produzidos e a capacidade disponível para armazenagem. Segundo levantamento da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja/MS), o Estado já acumula um déficit superior a 11 milhões de toneladas, consequência direta da expansão acelerada da produção agrícola nos últimos anos.

Nos últimos cinco ciclos, a produção média de soja e milho ultrapassou 22 milhões de toneladas, enquanto a capacidade de armazenamento soma apenas 16,4 milhões. De acordo com os parâmetros da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), o Estado precisaria de pelo menos 27,5 milhões de toneladas de capacidade instalada para atender à demanda atual.

Essa defasagem de quase 68% obriga muitos produtores a venderem as safras logo após a colheita, sem poder esperar por momentos de valorização do mercado.

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Crescimento em descompasso

Entre 2014 e 2025, a capacidade de armazenagem estadual cresceu 82%, passando de 9,01 milhões para 16,39 milhões de toneladas. No mesmo período, entretanto, a produção de grãos saltou 69%, de 17,23 milhões para 29,11 milhões de toneladas.

Mesmo com avanços, o ritmo de expansão da infraestrutura não acompanha o aumento produtivo. O déficit, que era de 8,25 milhões em 2014, hoje supera 12,7 milhões de toneladas — e chegou ao recorde de 21,23 milhões em 2023, após uma safra excepcional.

Segundo o secretário estadual de Meio Ambiente, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), Jaime Verruck, o cenário revela tanto um gargalo quanto uma oportunidade de investimento.

“O Governo do Estado tem direcionado esforços para estimular a armazenagem nas propriedades rurais, especialmente por meio de linhas de crédito como o FCO (Fundo Constitucional do Centro-Oeste), que oferece prazos longos e taxas competitivas — fatores essenciais para a viabilidade dos projetos”, afirmou.

Verruck também defende a retomada de financiamentos via BNDES, voltados à construção de armazéns, hoje inviabilizados pela alta da taxa Selic.


Municípios mais afetados

O estudo mostra que 73 dos 78 municípios sul-mato-grossenses operam em déficit de armazenagem. Maracaju, o maior produtor de grãos do Estado, enfrenta um déficit de 1,32 milhão de toneladas, enquanto Dourados é exceção, com superávit de 2,35 milhões de toneladas — sendo o município com maior capacidade instalada.

A Aprosoja/MS alerta que, se o ritmo de investimento não for acelerado, o déficit tende a aumentar. A safra nacional de grãos deve chegar a 350 milhões de toneladas em 2025, o que ampliará a pressão sobre o sistema logístico e de armazenagem.

“Sem novos investimentos, o déficit se tornará ainda mais severo, impactando a rentabilidade dos produtores, aumentando as perdas pós-colheita e elevando custos logísticos”, destacou a entidade.


Logística e competitividade

A falta de infraestrutura também afeta diretamente o transporte e o escoamento da produção. Mesmo com rodovias estratégicas como a BR-163 e a BR-262, muitas regiões rurais ainda enfrentam grandes distâncias até os armazéns, o que encarece o frete e eleva as perdas no deslocamento.

“Enfrentar o problema de armazenagem é fundamental para garantir o crescimento sustentável do agronegócio. O Estado trabalha em várias frentes — desde o incentivo ao crédito até projetos logísticos como a Rota Bioceânica, a reativação da malha ferroviária e o uso da hidrovia do Rio Paraguai”, reforça Verruck.


Investimentos em expansão

Em julho, o Governo do Estado anunciou apoio a R$ 500 milhões em investimentos da Coamo, destinados à ampliação da unidade industrial e à construção de três novos armazéns.
A empresa investirá R$ 200 milhões na expansão da fábrica de processamento de soja em Dourados, aumentando a capacidade de 3 mil para 4 mil toneladas por dia, e mais R$ 80 milhões em cada novo armazém em Sidrolândia, Amambai e Dourados.


Safras recordes consolidam o desafio

Dados do Sistema de Informação Geográfica do Agronegócio (Siga-MS) indicam que Mato Grosso do Sul caminha para colher a maior safra de milho da história, com 14,226 milhões de toneladas na segunda safra 2024/2025.
A soja também mantém patamares elevados, com 14,16 milhões de toneladas colhidas no último ciclo.

Com o crescimento contínuo da produção, o alerta é claro: sem investimento em armazenagem, o Estado corre o risco de perder competitividade.

“A ampliação dos armazéns é mais do que uma necessidade — é uma estratégia para o futuro do agronegócio sul-mato-grossense”, concluiu Verruck.