
A COP 30, sediada em Belém entre os dias 10 e 21 de novembro, chega ao Brasil envolta em crise de credibilidade e já é classificada por especialistas como vulnerável antes mesmo de sua abertura. A capital paraense, que deveria ostentar o protagonismo do país em pauta ambiental, se tornou sinônimo de improviso, insegurança e infraestrutura deficiente — fatores que põem em xeque o legado esperado com o evento.
O governo do Luiz Inácio Lula da Silva havia anunciado a COP 30 como marco da diplomacia ambiental brasileira e como instrumento para reposicionar o país na vanguarda do debate climático internacional. No entanto, a antecipação de falhas logísticas — como hospedagens com valores abusivos e relatos de insegurança no entorno dos hotéis — e a baixa confirmação de chefes de Estado minam essa ambição. A confirmação de apenas 57 líderes mundiais contrasta com os 75 que participaram da edição anterior em 2024.
A situação fica ainda mais delicada por conta das contradições dentro da agenda ambiental brasileira. Poucos dias antes do evento, o Ibama autorizou a exploração de petróleo na Foz do Amazonas pela Petrobras — uma decisão criticada por ambientalistas e por integrantes da comunidade internacional ao enfraquecer a retórica de transição energética do país.
Outro foco de desgaste envolve a infraestrutura local. Belém enfrenta críticas das próprias autoridades regionais após falhas recentes em obras consideradas legado da COP. Um trecho de asfalto cedido no Parque Linear da Nova Doca, orçado em R$ 310 milhões, resultou em representação junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) por suspeita de superfaturamento antes mesmo da abertura do evento.
Gazeta do Povo
A escassez de grandes lideranças estrangeiras confirmadas acentua a sensação de que a COP 30 pode se tornar “a COP das indulgências”, na expressão do consultor Antônio Fernando Pinheiro Pedro. Ele alerta que o evento pode entrar para a história como mais um daqueles em que houve muita retórica e poucos resultados concretos.
Apesar dos desafios, o governo federal tenta vislumbrar possíveis ganhos de imagem. A analista Ana Paula Abritta aponta quatro estratégias que podem gerar efeitos positivos para o Brasil: a “localização estratégica” da Amazônia no debate global, a retomada da credibilidade ambiental, o protagonismo no financiamento climático e o destaque para a matriz energética limpa brasileira.
Entretanto, segundo Abritta, essas metas enfrentam entraves históricos — como o atraso no cumprimento das metas financeiras e a desconfiança internacional sobre o andamento das políticas ambientais brasileiras.