Economia Opinião
A Europa travou o acordo UE–Mercosul por medo da concorrência
A judicialização escancara a força política de um campo subsidiado, pouco competitivo e incapaz de disputar mercado sem proteção
23/01/2026 08h36
Por: Redação Digital Fonte: Miguel Daoud, Canal Rural
Fotos: Divulgação

Depois de mais de 25 anos de negociação, a Europa decidiu judicializar o acordo no Tribunal de Justiça da União Europeia, travando a ratificação por até dois anos. O argumento formal é técnico. A motivação real é clara: proteger o agricultor europeu da concorrência internacional.

Trata-se de um setor acomodado por décadas de subsídios, pouco eficiente, pouco competitivo e mal preparado para disputar mercado em igualdade de condições. Ainda assim, ou justamente por isso, é politicamente poderoso. Na Europa, o produtor rural é tratado como herói nacional, vive próximo aos centros urbanos, tem visibilidade e voto. E o governo que contraria o campo perde eleição.

O discurso ambiental entrou como cortina de fumaça. Regras verdes, salvaguardas e mecanismos de reequilíbrio viraram barreiras comerciais sofisticadas, usadas para conter a competitividade do Brasil e do Mercosul. O curioso é que essas exigências raramente são aplicadas com o mesmo rigor dentro da própria Europa.

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Ao ceder a essa pressão, a União Europeia comete um erro estratégico grave. Protege um setor agrícola pouco competitivo e, ao mesmo tempo, sacrifica sua indústria e sua tecnologia, que precisam urgentemente de novos mercados. Isolada pelos Estados Unidos e esmagada pela concorrência chinesa, a Europa fecha uma das poucas portas que ainda estavam abertas.

Pode até haver uma aplicação provisória do acordo comercial nos próximos meses, mas o estrago político já está feito. A mensagem tem lucidez: a Europa prefere proteger o passado a enfrentar o futuro.

E isso não prejudica apenas o Mercosul. Prejudica, sobretudo, a própria Europa.